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EXPRESSO BRASILEIRO, MUITO MAIS QUE UMA SALA VIP

Na elegante São Paulo dos anos de 1950, agência do Expresso Brasileiro na Avenida Ipiranga tinha até sala de cinema.

Hoje as “Salas Vip” das empresas de ônibus são uma tendência nos principais terminais rodoviários do País e uma forma encontrada pelas viações de atrair mais passageiros, muitos que haviam migrado para o setor aéreo.

Algumas salas são vip mesmo, com bebidas, internet  grátis, totem de autoatendimento, TVs e painéis de informação. Outras não passam na verdade de espaços delimitados por divisórias dentro das rodoviárias, quentes, com poltronas pouco confortáveis e cafezinho ou capucino em pó e pago a parte.

Mas antes mesmo de se tornarem moda, não exatamente com o nome Sala Vip, havia espaços de bem estar e convivência para passageiros de grandes empresas de ônibus.

E na elegante São Paulo dos anos de 1950, quando até o mais simples trabalhador se trajava de forma alinhada, um destes espaços chamava a atenção.

Era a agência do Expresso Brasileiro Viação Ltda na Avenida Ipiranga, no centro da cidade. Criado em outubro de 1941 pelo empresário espanhol Manoel Diegues para fazer a ligação entre São Paulo e Santos.

Mas antes mesmo de sua expansão, a agência esbanjava luxo e refletia uma época que o belo da cidade não necessariamente contrariava o seu crescimento e vice e versa. Infelizmente, com o passar do tempo, sinal de crescimento se tornou sinônimo de imagens como casas e prédios precários, favelas, lixo, ruas esburacadas, comércio ambulante descontrolado, etc.

O espaço foi inaugurado em 1º de agosto de 1951, no número 885 da Avenida Ipiranga, perto da Avenida São João.

O local tinha de tudo e não se limitava a vender passagens de ônibus e ser uma área on

de os passageiros embarcavam e desembarcaram. Os ônibus paravam ali e, mesmo com a frota de veículos de São Paulo já sendo uma das maiores do país, não atrapalhavam o trânsito. Não havia ainda a Rodoviária Júlio Prestes, inaugurada oficialmente em 25 de janeiro de 1961.

Na agência do Expresso Brasileiro era possível comprar passagens ferroviárias, marítimas e aéreas.

Havia também tabacarias, lojas de doces, bar, restaurante, bares, barbeiro, salão de cabeleireiro, banca de jornal e revista, área de bem-estar e convivência e até exposição de materiais artísticos. Na parte de baixo, no subsolo, também havia uma TV, aparelho raro no Brasil, e uma sala de cinema com exibições gratuitas.

O local, apesar de ser destinado às operações do Expresso Brasileiro, servia com o ponto de encontro e até passeio na cidade, inclusive por quem não ia viajar. Muitos dizem que iam tomar um cafezinho na agência para ver o movimento de ida e chegada dos passageiros nos ônibus GM Coach que o EBVL possuía.

O empresário sabia que ônibus bons e horários cumpridos é o essencial que todo o passageiro quer. Mas, antes mesmo da moda de chamar passageiro de cliente, Manoel Diegues já tinha esse conceito e a noção de que para se destacar tinha de oferecer além do básico.

Também sabia que a empresa tem de se comunicar com o usuário. Hoje em dia, em plena era da internet, muitas companhias sequer têm sites ou quando possuem, servem apenas para vender passagens, não apresentando sequer um conteúdo interessante. Nos anos de 1950, Diegues mandou o Expresso editar sua própria revista de bordo, “Viajando”, com circulação bimestral e tiragem de 20 mil unidades por edição. Os assuntos eram os mais variados e prendiam a atenção do passageiro.

No entanto, alguns fatores acabaram prejudicando os planos de Manoel Diegues de crescer com sua empresa. As dificuldades de liberação na Alfândega dos ônibus importados dos Estados Unidos em 1958 para fazer frente a principal concorrente na linha Rio-São Paulo , Viação Cometa, que em 1954 havia recebido os Morubixaba, também dos Estados Unidos, acabaram sendo os fatores mais determinantes, entre outros, que impediram a manutenção do ritmo de crescimento do Expresso. Desanimado e em dificuldades financeiras, no início dos anos de 1960, Manoel Diegues vendera a empresa que foi, em sua época, reconhecida por ter sido a maior organização rodoviária da América Latina.

Mas deixou um legado e marcou uma nova fase de relacionamento entre empresas de ônibus e passageiros.

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Adamo Bazani, jornalista da Rádio CBN, especializado em transportes

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